quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Um bicho-de-sete-cabeças

ALVITO, Marcos. Um bicho-de-sete-cabeças. In: Um século de favela. Rio de Janeiro:FGV, 1998.

Marcos Alvito é mestre em História Social das Ideias, pela Universidade Federal Fluminense, e doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo. Possui uma excelente postura ao falar das favelas do Rio de Janeiro, inclusive do comportamento de seus moradores e das relações que eles possuem com os mais variados temas.

O artigo “Um bicho-de-sete-cabeças”, presente no livro Um século de favela, é uma experiência que o autor viveu durante um tempo na favela do Acari, região norte do Rio de Janeiro. Nesse texto, o autor tem como foco os estudos da honra, hierarquia e reciprocidade, esta última sendo considerada como um objetivo a ser seguido.

De fato, Alvito expõe de uma forma muito tranquila a vida cotidiana de algumas pessoas da favela e deixa bem claro que a favela não existe. O que ele quer dizer é que o Acari possui três favelas diferentes, cada uma com seu nome e características. Mostra que o termo “complexo do Acari” não é aceito entre as pessoas, uma vez que complexo deriva de um vocábulo penal.

O texto se divide em dois subtemas, nos quais são relatadas algumas situações bem características das favelas do Rio de Janeiro, mas que podem ser comparadas à vida de qualquer outra pessoa, em qualquer outra periferia do Brasil ou quem sabe do mundo. A falta de dinheiro, de emprego, de infraestrutura, de projetos educacionais, são algumas das realidades de centenas de milhares de pessoas. Há também a violência crescente que ocorre principalmente pelo aumento do tráfico de drogas.

A favela do Acari ou Complexo do Acari tornou- se “famosa” na mídia logo após algumas descobertas sobre o tráfico de cocaína, feiras que vendas produtos roubados e mães em busca de justiça. Em 1996, a favela foi invadida pela polícia, mas o que poderia ser uma solução para os moradores, acabou se tornando um prejuízo, uma vez que o tráfico praticamente sustentava a economia do lugar. O comércio foi totalmente abalado e os comerciantes perderam boa parte de sua renda. De uma forma ou de outra, as pessoas estão ligadas ao tráfico.

O autor não deixa de abordar questões sobre a vida dentro da favela, o comportamento de crianças, de jovens e adultos, cita alguns elementos na linguagem desses lugares e mostra como a reciprocidade é atingida numa região que, aos olhos de quem está de fora, acredita ser apenas de guerras entre policiais e traficantes.

Não há como negar que o texto é muito interessante e real. Para quem está acostumado aos filmes brasileiros que retratam as favelas do Rio de Janeiro, ler este texto vai trazer uma breve, porém intensa reflexão de que o que existe dentro desses lugares são seres humanos como outros quaisquer, que possuem honra, que têm lá a sua hierarquia e que são sempre pessoas recíprocas. Alvito afirma, na conclusão do texto, que muitos estudos são necessários para apagar a visão dos moradores da favela de que ela não é um “bicho-de-sete-cabeças”, mas também deveria existir outro estudo que pudesse desmistificar tal conceito na cabeça de quem não mora na favela.

Por Renata Lima Vieira, aluna do curso de Letras/ Habilitação Língua Francesa da UFPA.

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